quinta-feira, 11 de junho de 2009

sala de espelhos

Escutou o despertador, mas já estava semi-acordada. Em noites mal-dormidas nuca sabe direito se chegou a adormecer de fato. Incomodou-se com o fato de nem querer acionar o "soneca", desprezando uns minutinhos a mais na cama quentinha. Ora, é outono em Porto Alegre, daqueles típicos, ou seja: um mero eufemismo para "inverno glacial".

Os movimentos automáticos na cozinha, preparando o café-da-manhã, a necessidade de manter mãos e mente ocupadas 100% do tempo, o "bom dia" grunhido. Queria acordar com preguiça e ir despertando aos poucos, abraçar e beijar as crianças, sentar e ler o jornal com calma, só com uma xícara de café, ouvindo o Bom Dia Brasil ao fundo. Mas via que já incorporava uma formiga operária há dias, com humor de jararaca, e a constatação só servia pra irritá-la mais e mais.

Naquela quinta-feira, o céu azul e a perspectiva de um certo encontro casual a animaram a se arrumar e sair de casa relativamente satisfeita, apesar do mau começo. Sentia-se bem, mas já deixara de creditar isso a uma conquista, sabia ser apenas um momento. A dor de cotovelo, a saudade de uma rotina bem diferente, a demorada - mas enfim chegada - constatação das consequências de alguns atos pregressos... tudo isso andava ali ainda, e jamais era completamente ignorado.

Todavia, andou pela Rua da Praia ensolarada, entrou em um sebo, chegou pontualmente ao tribunal... finda a sessão, sentia-se de fato feliz com essas frugalidades. Quando fatos prosaicos da vida a alegravam, sabia ser sinal de que a nuvem negra começava a se dissipar. Não havia conseguido falar com a amiga para almoçarem juntas, mas paciência, desencontros acontecem...

Eis que na saída do plenário, a amiga aparece, atrasada, atrapalhada, e em um diálogo que durou menos de um minuto, as duas conseguem se estranhar! Poucas palavras, mas fisionomias suficientemente expressivas para instalar-se a hostilidade.

Sem compreender, ela quis tirar a história a limpo. "Como assim? Por que a cara feia? O que que eu te fiz? E a propósito, por que tu não me escutas mais? Não quiseste saber daquela carta que eu mandei pra ele? Tampouco me contas das coisas que realmente passam pela tua cabeça? Só essas chatices que eu não aguento mais ouvir... Cadê aquelas duas gurias que viviam grudadas no início da faculdade? Às vésperas da formatura, parecemos duas estranhas!"

E na resposta, caiu na real: "somos muito parecidas. Nossa carcaça dura, a eventual cara de poucos amigos, o pavio curto... quando nos vimos mais cedo, uma viu na outra um espelho - e nenhuma gostou do que viu." Silêncio. Reflexão. Ops. Foi assim que as duas conseguiram se enxergar finalmente: carrancudas, mas se foi o jeito, que bom que ainda tinha jeito! Seguirem-se pitadas de DR que não convém transcrever...

Depois dessa conversa, decidiram abrir os olhos uma pra outra. Não são mais as gurias de 18 anos recém passadas no vestibular, que todos os dias comiam alguma coisa muito boa antes de ir pra faculdade. Também deixaram de ser as estagiárias subversivas, que entre outras coisas ficavam bêbadas no happy hour dia sim, dia não, e depois iam pra aula trocando as pernas. Ainda porra-loucas? Por vezes, não há dúvida. Talvez exatamente as mesmas na essência, mas inevitavelmente mudadas depois de tudo o que os últimos 5 anos lhes apresentaram. Amigas, sim, e não só de faculdade, ora essa!

Parece que agora andam as duas empenhadas em controlar melhor o humor e a linguagem corporal pra deixar de gelar os ossos de quem quer que as encare em dias não tão ensolarados... exceto quando recebem olhares desaprovadores durante conversas em sala de aula. Nesses casos, a uma delas só falta rosnar!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ata-me

Depois de tanto escrever sobre dias cinzas e diante da previsão de mais um fim-de-semana de ruas pouco convidativas, minha sede de cores e tramas vibrantes foi levada às últimas consequências! Entrei na locadora em visível agitação, e supliquei ao atendente: Almodóvar!

Como bom profissional que é, ele detectou a gravidade do caso e prontamente sacou uma dose cavalar: Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos E Ata-me.

Optei aleatoriamente por começar pelas mulheres piradas. E a escolha casual se mostrou acertadíssima. O filme é cômico, e a estética almodovariana - atemporalmente kitsch - não poderia ter tirado melhor proveito da década de 80. Highlights: o visu de Julieta Serrano como esposa traída, completamente desgrenhada, de sombra preta com cílios desenhados e indefectível tailleur de tweed; e o comercial de sabão em pó estrelado pela protagonista, uma Carmen Maura linda de morrer, que lavava a camisa ensanguentada de seu filho assassino, enaltecendo a capacidade alvejante do produto ("parece mentira")! A marca do sabão? "Ecce Homo"! Sensacional...

O bom de começar com o filme mais absolutamente bizarro foi que assim preparou-se o terreno para a segunda sessão: Ata-me! A pungência do título já dá uma idéia da trama, e um olhar menos atento pode não enxergar muito além de uma comédia sado-masô. Mas fora todas as gargalhadas e bizarrices, além da transa espetacular entre Banderas e Victoria Abril, o filme me comoveu. De verdade.
A julgar pela filmografia mais recente do diretor, nenhuma surpresa: Fale com Ela, Má Educação, Volver... todos filmes extremamente tocantes. Caricaturais em maior ou menor medida, mas capazes de fazer os mais broncos ficarem pelo menos com um nó na garganta, diante da combinação de fotografia fora do comum, trilha sonora sublime e personagens humanos demais. Mas fiquei com a impressão de que essa capacidade que o Almodóvar tem de ler e traduzir o universo humano - e principalmente feminino - com tamanha delicadeza foi se mostrando aos poucos e de maneira extremamente sutil.
Pra ilustrar o que eu tô tentando expressar, vou falar logo do bendito filme, em vez de ficar nesse ata/desata (não resisti, sorry!). Ata-me conta a história de amor entre uma atriz de segunda e o psicopata que a sequestra. À 1ª vista, a doida da trama é ela, afinal de contas, pra se apaixonar por uma pessoa que te quebra um dente e te mantém amarrada por dias a fio, só sendo louca de atar (!) mesmo... Acontece que o tal maníaco passou a vida jogado às traças, e o único amor que conheceu foi o da diretora do hospital psiquiátrico onde ele vivia até então. Um amor não exatamente maternal, digamos assim... De modo que sendo obcecado pela mulher - com quem já tinha passado uma noite, no passado junkie dela -, e não tendo nada a perder, era de se esperar que ele não pensasse em outra alternativa além de manter a moça bem presa até que ela se apaixonasse também. Enquanto isso, ele cuidava da dor de dente dela, falava nos filhos que eles teriam e a deitava numa cama sob um teto envidraçado, pra que ela ficasse com a lua e as estrelas enquanto ele ficasse fora... e a porn star viciada em heroína descobriu que era merecedora de amor e de cuidados (ainda que um pouco fora dos padrões preconizados pela Lei Maria da Penha...). Até que teve a chance de fugir, e não fugiu. E quando foi resgatada, não demorou a correr atrás do sequestrador amado, pra viverem felizes para sempre...
Fiquei pensando depois na riqueza de elementos da história, que tem uma série de nuances das quais eu não vou falar aqui; na sutileza de um diretor que exagera nas imagens, que constrói um universo over, pra dar um recado que passa longe do escracho puro e simples. Pensei também em como deve ter sido difícil contar uma história dessas, em que se consegue enxergar o amor apesar de todas as barbaridades, e como é libertador lembrar que a vida real não se presta a maniqueísmos e idéias prontas. Também não é porque eu me afeiçoei à história de Ricky e Marina que eu passei a achar lindo bater em mulher ou manter a amada em cativeiro... Só fico emocionada com a capacidade de um diretor que mostra os personagens mais marginais e controversos sendo exatamente o que eles são, o que todos somos: humanos; apaixonados; fortalezas vulneráveis; cômicos e trágicos.
No final de tudo, nossas estruturas estão aí pra serem abaladas, não é mesmo?

Vocabulário

A-d-o-ro dicionários. Seja o nosso bom e velho Aurelião, seja qualquer um de línguas, tem alguma coisa nesses volumosos livros, muitas vezes empoeirados, esquecidos em uma estante qualquer das nossas casas, que me fascina. Acho que isto decorre de eu sempre ter admirado quem fala e/ou escreve bonito e isso geralmente se dá, dentre outras razões, por uma imprescindível: UM BOM VOCABULÁRIO. Não tenho dúvidas de que a pessoa que tem vocabulário – e claro, sabe construir as frases para utilizá-lo – se destaca fortemente das demais. Um exemplo disso para mim, fugindo da obviedade dos autores conhecidos e consagrados, está nesse singelo blog: os textos da Mari - além do conteúdo, que eu adoro - sempre me impressionam pelo vocabulário que ela usa, expressões que jamais passariam pela minha cabeça estão lá, parecendo, depois de escritas, serem a coisa mais óbvia a se colocar naquela parte do texto.

Pois bem, disse isso para fazer uma confissão: uma das minhas paixões no escritório onde eu trabalho é pesada, volumosa e pouco atraente. Um artigo da biblioteca, justamente da família dos dicionários, só que um pouco diferente do tradicional: o Houaiss de sinônimos e antônimos! Sério, são quase 1.000 páginas com sinônimos para todas as palavras possíveis, uma delícia de consultar na hora de escrever. Porque se eu ia escrever “casamento”, porque não preferir “conúbio” e dar uma diferenciada? Se eu queria dizer que aquele ato gerou uma agitação só, porque não mencionar que foi um alvoroço, um bulício até? E nesses tempos em que beber virou modinha, eu posso alertar para o perigo mencionando que a pessoa pode se tornar alcoólatra. Mas isto é tão recorrente que talvez impressione mais se eu falar que ela pode virar um alcoolômano, um dipsomaníaco, ébrio, etilista. Bom, né? Eu, por exemplo, quando estiver impaciente no trânsito por causa daqueles carros que andam a 10 Km/h, não vou buzinar e chamar o motorista de lerdo. Vou gritar que ele é pachorrento, remansado! Uma maravilha!

Pode parecer meio nerds, pode ser coisa de louco, mas nada como uma boa olhada em um dicionário de vez em quando. Acreditem, tem certas coisas que fazem toda a diferença.

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E falando em dipsomaníaco e em admiração pela Mari, depois de sábado dei um tempo na ingestão de qualquer substância adicionada de etanol e derivados por tempo indeterminado. Nem a ida do colorado para a final da Copa do Brasil nesta quarta-feira vai me desvirtuar do meu objetivo.

domingo, 31 de maio de 2009

Lacanagem com O Banquete

Grandes nomes de épocas diferentes reunidos em um único evento. A montagem do espetáculo teatral O Banquete que estará a disposição do público em junho no Theatro São Pedro.

No princípio de tudo, há mais ou menos 2.500 anos, um homem chamado Platão escreveu textos que, devido a importância dos temas debatidos nos mesmos, o deram o título de pai da filosofia ocidental. Possuidor de uma mente inquieta e contestador, como se não bastesse o talento com as palavras, Platão é responsável por dar a civilização atual o acesso aos pensamentos socráticos. Como Jesus Cristo, Sócrates dividiu o tempo em dois: antes e depois dele, e nunca escreveu uma única palavra. Podemos assim dizer que Platão está para Sócrates como os Apóstolos para Jesus Cristo.
Em 1961, um dos maiores psicanalistas de sua época, o francês Jacques Lacan escreveu o volume 8 de O Seminário, dedicado a “a transferência”. Neste estudo, há uma genial sacanagem feita pelo autor sobre os personagens e o cenário de O Banquete, texto escrito por Platão. No original estão Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates e Alcibíades reunidos na casa de Agatão para comemorar o fato de o anfitrião ter ganhado o prêmio de dramaturgo numa edição dos concursos teatrais da época. Na comemoração um único tema foi discutido: o amor, Eros. Nos ensaios de Lacan, encontramos os mesmos personagens, porém com a análise peculiar sobre cada um que só um mestre poderia ter feito sem nunca ter conversado com eles. Se vê no livro uma inteligente brincadeira sobre os discursos e a personalidade de cada um. Lá, temos um Fedro hipocondríaco, idealista e romântico, um Agatão elegante e exibido e um Pausânias afeminado, entre outras “lacanagens”.
Esse trabalho feito foi o que bastou para, em 2008, um dos grandes intelectuais da nossa época e cidade, Donaldo Schüler, fazer uma brilhante adaptação para o teatro de O Banquete, com uma visão lacaniana dos personagens de Platão. Ao finalizar sua obra, Schüler tinha uma comédia nas mãos. “Platão é um dos grandes brincalhões da literatura ocidental. No Banquete, ele brinca desde a primeira linha. Não seria justo sacrificar a brincadeira nesta reunião de ébrios. A dialética de Platão é erótica, o prazer não está excluído de seus processos de investigação. O discurso erotizado cria, não a filosofia austera, mas a filosofia apaixonada”, descreve ele.
Com o texto para o teatro pronto, eis que entra em cena outro grande nome da cultura local, Schüler convidou Luciano Alabarse, um dos mais renomados diretores de teatro de Porto Alegre e estudioso do teatro grego, para levar ao palco sua adaptação. Num espetáculo em que o texto está em primeiro plano é importante, para que ele se destaque, a criação e execução dos personagens, que deve ser a prioridade da encenação. Para isso, Alabarse convidou um time de atores de primeiro nível como Luiz Paulo Vasconcelos, Mauro Soares, Carlos Cunha, José Baldissera, Sandra Dani, Vika Scgabbach, Lutti Pereira, Marcos Contreras e Marcelo Adams para dar vida aos presentes no banquete. “Que ninguém espere dos personagens platônicos um romantismo desvairado construído a partir de clichês. Erudição, irreverência e iconoclastia são os principais ingredientes desse banquete grego e universal. Quanto ao texto, qualquer semelhança com nossa atual conjuntura só mostra que o carimbo de validade da obra está afiadíssimo e vigente, pois o texto é puro Platão” conta Alabarse.
E aproveitando o ensejo, a produção é deste que vos escreve. Será um verdadeiro evento que transformará de ponta cabeça os pensamentos de todos que forem ao Theatro São Pedro entre os dias 04 e 14 de junho de 2009. De quintas a sábados às 19 horas e domingos às 18 horas. O espetáculo começa com uma introdução a filosofia platônica a partir dos diálogos de Sócrates. E após o intervalo, deliciem-se com O Banquete e um bom apetite! Aguardo a todos com muita fome de cultura, afinal a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.

sábado, 30 de maio de 2009

chuva, cama e revistas

Por que será que quando chove a pessoa sente necessidade de escrever? Comentei isso com a Luiza ontem: nos últimos dias, cada pensamento que vem a gente já imagina como pode colocar em forma de texto, as duas andam numa fase muito escrivinhadeira...
Eis as últimas, então: na minha corrida matinal várias idéias me ocorreram e eu fui viajando nas associações.
Primeiro pensamento: eu me sinto muito foda correndo na chuva (essa expressão é um tanto grosseira, mas não consigo pensar em outra mais adequada). Por que será? Me dei conta de que por melhor que seja a sensação da corrida em si - a endorfina circulando, o shuffle inexplicavelmente acertado do iPod, a conclusão do percurso planejado -, ela em nada difere do que eu sinto correndo em dias de sol. O motivo real: a idéia de estar correndo na chuva em um sábado de manhã, quando a maioria das pessoas está em suas casas dormindo, ou em seus carros indo pro shopping, secas, agasalhadas, confortáveis, cercadas de distrações e aconchegos. Inevitável o prazer triunfante de perceber que algo que a maioria dos mortais consideraria uma grande roubada me enche de satisfação!
Sempre senti isso, mas quis escrever a respeito porque essa semana eu li um texto que foi publicado na última Piauí. O autor é um norueguês chamado Per Petterson, e o título é "A Busca, Noite Adentro". Ele fala do hábito que tem de sair a caminhar pela noite, em meio à absoluta escuridão, durante o inverno gelado daqueles pagos. Por que ele faz isso? Porque sente necessidade, às vezes, de fugir de si mesmo, "dissolver um pouquinho a fronteira entre corpo e não-corpo", como se a sensação do infinito presente no breu total descolasse ele dos papéis desempenhados diariamente: o professor, o escritor, o marido, o contribuinte... Ali ele traça paralelos com pessoas que foram ao Saara em busca do nada. Vou transcrever só mais um trecho: "(...)pode ser que muitos façam isso: procurem o esquecimento, por razões que não julgarei agora, não aqui sozinho nesta estrada de chão batido, mas para encontrar esse esquecimento, para serem deixados para trás, podem permitir que o deserto faça o papel de uma grande borracha, que atue de forma tão absoluta como o apagador no quadro-negro, que no fim não se possa mais ouvir nada no vazio, a não ser o som frágil dos sinos da ausência. Outros buscam a mudança, querem mudar a si mesmos completamente, e para conseguí-lo precisam atravessar a noite, penetrar no deserto e talvez deixar que o vento seco e abrasivo da mudança sopre através dos seus corpos e limpe as suas almas; deixar que o deserto os reeduque para as coisas elementares.".
O texto me tocou por causa da identificação, essa razão tão óbvia que nos leva a gostar de filmes, livros, pessoas e lugares. O que eu sinto correndo na chuva, andando sozinha pela rua de noite, trabalhando perto do fogo e de facas afiadas é a minha modesta forma de viver situações análogas às desse andarilho da escuridão e dos "mergulhadores do Saara". Estar alerta, testar os limites da minha resistência física, tolerar cortes e queimaduras. Tudo isso tem muito de auto-destruição, mas também é permeado pela vontade de tomar consciência do que eu tenho de mais humano, de mais elementar.
Essas divagações me levaram a outra mais superficial: ando sem saco pra Vogue e Elle, duas revistas que eu adoro. Ah, cansei de expressões como old money, it girl, e afins... Das reportagens falando sobre pessoas e suas respectivas vidas como se fossem todos muito cool, até bem de pertinho, do savoir vivre indissociavelmente ligado ao luxo. Uma preocupação permanente com status e imagem que às vezes cansa... Acabei de falar que adoro essas revistas, e normalmente gosto mesmo de ler o mundo sob essa ótica glamourosa. A qualidade editorial é indiscutível, a competência pra abordar moda e tendências é perceptível em cada página. Nada disso eu nego, só tô dizendo que me enfarei um pouco, só isso.
Por isso que comprei a Piauí, que eu tinha lido pouquíssimas vezes, e tô adorando. A tpm é outra que vira e mexe tá na minha cabeceira: dá gosto ler uma revista que não dedique uma linha a ensinar como enlouquecer os homens ou à última maneira revolucionária de acabar com a celulite.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

SOBRE PLANOS, MANDATOS E CRACK.

Eu estou com saudade de ter planos. Assim, não sei explicar, mas eu ando com uma sensação de estar vivendo dia a dia só me deixando levar, sem ter um objetivo concreto para o futuro, sem estar perseguindo algo. Os únicos planos que eu sempre faço e obrigatoriamente tenho são as minhas próximas férias. Neste quesito pode saber que sempre tem alguma coisa na minha cabeça, uma viagem programada, um roteiro feito. Mas eu estou sentindo falta de uma coisa maior, em relação à minha vida mesmo, à carreira, ao futuro: carência de um objetivo claro.

Pode ser passar em um concurso, entrar em determinada empresa, pode ser até tirar só A na faculdade, decidir estudar MESMO. Contando que eu tenha um lugar a chegar e um caminho a percorrer, é isso que eu quero ter e que está me fazendo falta.

Fazer um curso de línguas (inglês ou francês), melhorar meu tempo na corrida, ir bem na faculdade, estabelecer um horário de estudo certo, pelo menos duas horas por dia três vezes por semana, decidir mais ou menos onde eu quero trabalhar e em que área. Enfim, planejar. Tá decidido: esse será meu novo passatempo.

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Essa insistência em falar em terceiro mandato do Lula é uma coisa que me irrita profundamente. A simples conversão desta idéia em projeto concreto, sujeito à votação na Câmara, já me parece uma profunda afronta à democracia, tão consolidada no nosso país. Porque nós podemos ter todos os problemas possíveis politicamente – e temos! – mas uma coisa de que podemos nos orgulhar é da nossa democracia. Então eu espero que continuemos assim, que os nossos parlamentares sigam inclusive a vontade do próprio presidente – que se diz rigorosamente contrário à tal emenda constitucional.

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Não adianta, no Rio Grande do Sul a RBS nos cerca. A grande maioria dos gaúchos – e eu me incluo nestes – assiste ao canal 12, ouve na AM a Gaúcha, na FM a Atlântida ou a Cidade, lê a Zero Hora ou o Diário Gaúcho. E já que é assim, que bom que eles decidem fazer essas campanhas institucionais e eleger um tema novo todo ano para conscientizar e alertar a população. Já teve contra violência doméstica, para a paz no trânsito e agora é sobre o Crack. Essa droga pesada, que parecia tão longe da nossa realidade, coisa de “mendigo e presidiário”, já está completamente disseminada, se tornou um problema de saúde pública, sem qualquer distinção entre os viciados: classe baixa, média e alta sofrem igualmente. Sejam os pais que sofrem com o vício do filho, sejam os atingidos indiretamente, através dos roubos e mortes provocados por quem precisa de dinheiro para comprar mais droga, sejam os próprios viciados. Quando eu soube que alguém muito querido e próximo a mim estava sofrendo com esse vício foi um choque e a consciência da minha impotência diante de tal problema uma agonia. Querer ajudar e não ter o que fazer é das piores sensações que eu conheço. Torço profundamente, todos os dias, para ele se recuperar e enquanto isso apóio muito iniciativas como a da RBS. Elas provavelmente não ajudarão muito a ele, ou àqueles que já estão nesse caminho (que devem procurar tratamento, terapia, etc), mas podem, através da informação, impedir que outras pessoas entrem nessa. Que assim seja!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

a morbidez natural da vida

A vida é muito irônica mesmo. Acordamos, estudamos, trabalhamos, amamos, rimos, comemos, dormimos, caímos, levantamos, lembramos e esquecemos. Esquecemos na maior parte do tempo que essa sucessão de eventos pode ser subitamente interrompida. Não pensamos muito na morte, em geral, sob pena de concluir que talvez não valha o risco dedicarmo-nos com afinco a causa nenhuma, afinal de contas, amanhã pode-se ter partido dessa pra melhor...
E um dia, ela resolve fazer uma visita. Um aceno, não tão de perto que interompa nossa caminhada, mas ainda desconfortavelmente próxima. E é nesses casos que a morte me parece mais perturbadora. Quando eu fiquei na fronteira, me vi tranquila, contemplativa, quase alienada (O Dráuzio Varella trata em um livro sobre o estado psicológico - espiritual? - dos pacientes terminais. Na mosca!). Quando pessoas amadas se foram, me vi no centro da tragédia, no olho do furacão, e só tinha espaço pra tristeza. Depois do luto, a aceitação. O ciclo natural, creio eu.
Mas hoje foi diferente. Fui ao velório do pai da minha tia. E não sei explicar, até agora, o que eu senti.
Conhecia o falecido superficialmente. Era um senhor muito simpático, ainda que reservado. Encontrava ele e a esposa, sempre juntos, com frequência: no Parcão, na feirinha orgânica, nos churrascos do meu tio. Ele acabava de ganhar uma netinha, minha prima linda. Minha tia, que eu adoro, era bem ligada ao pai, e cortou o coração ver a tristeza dela. Mas fora esse pesar, não posso dizer que eu tinha uma relação com o falecido. Não tinha. E era isso que me incomodava, me saber quase uma estranha ali, diante do corpo inerte de uma pessoa. E os grupos conversando, por vezes até sorrindo, não por frivolidade, mas imagino que na tentativa de negar o peso daquele ambiente, da circunstância insólita de se estar diante de um corpo que poucos dias antes respirava, andava, falava, beijava a esposa, ninava a netinha, dirigia o carro.
A morte é natural, é nossa única certeza, mas não vejo como se habituar a ela, ou estar preparado pra quando ela chegar. É muito estranho, velório é uma coisa louca, não sei até hoje se eu concordo que seja necessário pra processar a informação de que aquela pessoa se foi, que simbolize a despedida. Não faz o menor sentido ver sem vida alguém que a gente ama.
Cada frase que eu penso, escrevo aqui e em seguida apago... porque todas parecem pueris. Sou só eu tentando colocar em palavras tudo aquilo que vem com a consciência de que a morte está permanentemente à espreita.

Pra completar, fui ver a exposição do Corpo Humano assim que saí do crematório.


Por uma sexta-feira menos sombria e pelo pronto restabelecimento da ignorância fingida quanto ao nosso destino inevitável.

...pensamentos, teorias e devaneios...