domingo, 11 de setembro de 2011




Um domingo de sol, coroando o desenrolar das coisas. Um brinde ao que há por vir, outro ao que vem sendo conquistado. Ansiedade de lado, equilíbrio ampliado. Como diria Fernando Pessoa, "há metafísica bastante em não pensar em nada".

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Insustentável




Eis que eu estava lendo "A insustentável leveza do ser" e me deparo com essa passagem:

"A jovem falava da tempestade, o rosto banhado de um sorriso sonhador, e ele a olhava pasmo e quase envergonhado: ela vivera uma coisa bonita e ele não a vivera com ela. A reção dicotômica da memória dos dois à tempestade exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não-amor.
Por não-amor, não quero dizer que Tomas tenha se comportado com cinismo em relação a essa moça, que tenha visto nela, como se diz, somente um objeto sexual: ao contrário, gostava dela como amiga, apreciava seu caráter e inteligência, estava sempre pronto a ajudá-la quando precisasse. Não era ele que se comportava mal em relação a ela; era a sua memória que, independente da vontade, excluíra-a da esfera do amor.
Parece que existe no cerébro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética e que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. (...) Não havia lugar para ela na memória poética de Tomas. Só havia lugar para ela no tapete
".

PORRA, MILAN KUNDERA!

sábado, 13 de agosto de 2011

Conecting the dots

Não se pode dizer que o último ano de faculdade é uma coisa tranquila na vida de uma pessoa. Não só objetivamente, em relação a quantidade de coisas por fazer, mas também no aspecto subjetivo, na cabeça fervilhante de inquietações e ansiedade em relação ao futuro próximo. O que fazer, por onde seguir, será que vai dar certo, terei estudado o suficiente, vou ganhar dinheiro ou não, será que sou qualificada, qual o próximo passo, entre milhares de outros questionamentos que pipocam na nossa cabeça aleatoriamente, aparecendo do nada às dez da manhã de um sábado qualquer. Não há zen-budismo que aplaque o desequilíbrio desse milhão de dúvidas.

De qualquer forma, indo além dessa ansiedade latente, eu ainda consigo enxergar em mim, bem lá no fundo, alguma coisa parecida com tranquilidade, uma espécie de certeza de que a vida se encaminha de nos mostrar o caminho a seguir. Se eu pensar, saí do colégio nove anos atrás com a mais completa certeza de que em cinco eu seria uma arquiteta. Fiz, não gostei, e sem maiores dilemas morais fui procurar o que realmente me agradava, até então sem sequer cogitar a possibilidade de fazer Direito. Flertei com a Comunicação em um semestre de Cinema, fui dar uma banda por outro continente e enquanto isso continuava elaborando o que realmente me satisfaria profissionalmente. Lembro das associações mentais que eu fiz enquanto buscava entender o que realmente me agradava e posso dizer que, muito embora tenha sido um período de profunda racionalidade, acho que eu não entrei no Direito com completa certeza de que era aquilo que eu queria. E assim, meio tateando no escuro, me achei. Olhando para trás hoje, parece até meio estúpido eu não ter me dado conta antes do quanto tenho a ver com Direito. Por caminhos tortos, cheguei exatamente onde eu, mesmo sem saber, queria estar. Obrigada, escolhas erradas.

Stanford, 2005. Steve Jobs discursa para uma turma de formandos. Basicamente conta três histórias: fala sobre perda e morte e sobre como após as experiências podemos ligar os pontos e perceber como os tropeços nos fazem de alguma maneira chegar lá. "Connecting the dots". Não temos como fazer isso antes, mas lá no futuro, olhando para trás, podemos facilmente perceber como é fator determinante para alcançar o resultado esperado a experiência dolorosa. Ele cita o momento em que largou a faculdade e a sua demissão da Apple, a empresa que ele próprio havia criado, como as experiências mais devastadoras que teve e, ao mesmo tempo, as melhores coisas que podiam ter lhe acontecido. "Awful tasting medicine, but I guess the patient needed it". E segue Jobs:

"Sometimes life hits you in the head with a brick. Don't lose faith. I'm convinced that the only thing that kept me going was that I loved what I did. You've got to find what you love. And that is as true for your work as it is for your lovers. Your work is going to fill a large part of your life, and the only way to be truly satisfied is to do what you believe is great work. And the only way to do great work is to love what you do. If you haven't found it yet, keep looking. Don't settle. As with all matters of the heart, you'll know when you find it. And, like any great relationship, it just gets better and better as the years roll on. So keep looking until you find it. Don't settle.

Your time is limited, so don't waste it living someone else's life. Don't be trapped by dogma — which is living with the results of other people's thinking. Don't let the noise of others' opinions drown out your own inner voice. And most important, have the courage to follow your heart and intuition. They somehow already know what you truly want to become. Everything else is secondary
".

Porto Alegre, 2011. Palestra com os estagiários do escritório onde eu trabalho pelo CEO da firma, outro exemplo de pessoa brilhante que nos mostra que ninguém chega lá à toa. Dentre os conselhos para o futuro, um crucial: "mantenham-se sempre com um friozinho no estômago. Enquanto vocês tiverem esse friozinho, é sinal que estão indo pelo caminho certo. Não se acomodem". Voltando ao discurso do Jobs, seu fim é com a citação de uma frase de despedida de um periódico dos anos 70, como conselho para os recém formados e um exemplo do que ele próprio busca constantemente:

"Stay hungry. Stay foolish".

Não posso prever o futuro e não tenho como fugir do medo natural dessa época da vida, mas de um simples discurso de formatura e de uma palestra de fim de tarde no trabalho consigo ver que, por mais aterrorizante que seja essa fase, lá no futuro eu vou ligar os pontos e ver que intuitivamente eu segui o caminho certo. Eu faço o que gosto. Acredito na minha intuição. E o friozinho no estômago está aqui, graças a Deus.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Caio, Clarice e Amy.

No olho do furacão-morte-de-Amy e ao passar os olhos pelas milhares de reportagens a respeito que surgem de tudo que é canto, me peguei pensando sobre a dupla genialidade / dor - duas palavras que tantas vezes andam juntas, como ocorria com a Amy. E com outros tantos artistas no mais puro sentido da palavra. Quem me veio em mente? Obviamente, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector.

Já disse aqui algumas vezes o quanto eu sou apaixonada pelos dois. O que que não sei dizer é o que, nas duas obras, eu acho mais genial. Sei, entretanto, que certas peculiaridades que são comuns aos dois me atraem demais: a rebeldia entranhada, o espírito libertário, a busca constante, a racionalidade permeada da emoção mais insana. E tu vê: não seriam essas um pouco Winehouse também?

Analisando um pouco mais a fundo, penso que além de todas as características citadas, o que realmente me impressiona ao terminar de ler cada um dos textos do Caio e da Clarice é a profunda compreensão do mundo e do ser humano que eles tem. Uma compreensão doída, como toda espécie de lucidez, e de uma sensibilidade arrebatadora. Comentou o Caio, certa vez, sobre Clarice: “A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo”. COMPREENSÃO SANGRADA DE TUDO. Não é lindo isso? E depois ainda cita outros artistas que também fizeram da solidão e da profunda compreensão a mola para atingir a genialidade: Joyce, Van Gogh, Kafka, Artaud, Rimbaud.

Talvez seja isso. Talvez não exista lucidez sem tristeza, compreensão sem melancolia, genialidade sem dor. Não sei, mas Clarice e Caio sabiam.

E acho que a Amy também.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Diquinhas invernais

Friaca braba, hein? Deve ser por ela que eu ingressei numa forte fase caseira, de filmes, livros, revistas, filmes, livros, revistas. Como eu sei que não é só sobre mim que o invernão tem esse efeito, deixo a dica das últimas coisas que andei vendo / lendo / descobrindo.

NO CINEMA: Meia noite em Paris



Mais uma delícia de filme do Woody Allen. Com o humor irônico recorrente em toda (ou grande maioria) da cinegrafia woodyana, mas seguindo a tônica dessa sua fase européia: a história transpira o cenário. O filme em Londres foi sombrio, em Barcelona quente e em Paris... ah, em Paris veio impregnado de nostalgia e de um saudosismo lírico cujo cenário não podia ser outro. De brinde, um recheio de referências históricas/culturais maravilhosas e uma panorâmica inicial de Paris à la "Manhattan". Vontade de sair do cinema direto para a cidade luz. A de hoje ou a de alguns (ou muitos) anos atrás.

NA LOCADORA: O primeiro que disse



Filme franco-italiano di-ver-ti-dís-si-mo. Para fugir um pouco das bobalhadas das comédias americanas repetitivas e previsíveis e se deliciar com algumas agruras de uma típica (ou não tanto) família italiana!

NO CRIADO-MUDO: Um dia



Terminei de ler em dois. Livro fofíssimo, que conta a história de um casal, desde seu primeiro "encontro", no dia 15 de julho de 1988, em todos (e apenas) os dias 15 de julho dos 20 anos seguintes. Além da história entre os dois ser deliciosa, ainda retrata de forma absolutamente delicada a forma como vamos mudando(ou não) com o passar do tempo. Vai virar filme com a Anne Hathaway (que me parece perfeita para o papel!) e o carinha que fez "Across the Universe". Vale a pena ler antes de ver.


NO NOTEBOOK: Todo dia um look

Para aqueles (aquelas, devo dizer) que, como eu, sempre que podem bisbilhotam blogs de moda, street style e looks diários das it girls around the world. Quem acompanha essa montanha de sites fashionistas que tomaram conta da rede sabe que às vezes chegamos a ficar tontas tamanha a quantidade de conteúdo disponível, o que faz com que muitas vezes acabe repetitivo. Pois bem. Para dar uma espairecida e algumas risadas sem escapar completamente desse universo, dá uma olhadita no "todo dia um look". Três guris para lá de bem-humorados fizeram um site-paródia desse universo paralelo da web simplesmente sen-sa-cio-nal. Utilizando aquele vocabulário único, peculiar e próprio dos sites trend (talvez podemos chamá-lo de "Voguiano" ou algo do tipo), eles seguem no mesmo ritmo, mesclando expressões em inglês, com palavrinhas-chave como o multifuncional "it" (it-bag, it-girl, it-shoe) e outras, como must have, look, outfit e por aí vai com descrições hilárias das roupitchas usadas em cada ocasião. Como exeplo, no post "Look rastafari de apartamento", vem a seguinte descrição do visú:

"Camiseta color blocking da reguêra com o sempre t-shirtable Godfather do Reggae (constantemente visto em estampas de mash-ups com leões), baggy pants, sunglasses pra esconder os red-eyes (conjuntivite tá super usando) no almoço da Vó Mirtes e essa touca que vai fazer com que você arrependa de cada segundo desperdiçado com bobagens na sua adolescência são o outfit perfeito pra dançar o Catch a Fire inteiro, bolar um bem prensado no parquinho da vizinhança e levar um atraque delicioso da PM (ou da Vó Mirtes, whatever)".

Para dar uma desopilada do circuito fashion, adentrar o mundo humorístico e permanecer no inteligente.

NA CIDADE: Restaurant Week

Só vai até o dia 10 de julho, então tem que correr: evento gastronômico mundial que também veio para Porto Alegre. Almoço a R$ 29,90 e jantar a R$ 39,90, com entrada, prato principal e sobremesa inclusos, em restaurantes que, regra geral, fariam sofrer um pouco mais o nosso bolso. O único porém é que os pratos são pré-estabelecidos, então tem que dar um conferes no site do evento para ver qual te agrada. O Jasmin, por exemplo, oferece como prato principal, no jantar, filé com crocante de pinhão, acompanhado de creme de batata aromatizado com pimentas verdes e arroz de jasmim e aniz ou (pode optar) salmão em crosta de gergelim negro, servido com risoto de açafrão e crispy de alho-poró. De sobremesa, sorvete de rosas, servido com damasco flamabado e aniz estrelado. Tem ainda coisas deliciosas no Koh Pee Pee, Press, Calamares, Barba Negra, Sharim, Sashiburi, Sushi do Cléber, Atelier das Massas e por aí vai.

Mais uma semana, hein? Corre lá.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um post gordo


Café passado de manhã. Ou depois do almoço. Uma balinha butter toffe depois do almoço. Uma tragada em um cigarro depois de um gole de cerveja. Um Red Bull Light antes de ir para a noite. Uma Coca Zero de garrafa estupidamente gelada em uma manhã de ressaca. Chimarrão e bergamota olhando o pôr do sol. Uma cervejinha gelada em um fim de tarde de verão. Ou em uma noite de verão. Ou em uma noite de qualquer estação. Churrasco domingo. Galeto sábado. Fondue em Gramado. Chá de boldo após tudo isso. Sopa de capeleti e vinho no auge do inverno. Queijos e frios também. Água, sempre. Churrasquinho de gato depois de um jogo do Inter. Inter. Pipoca no cinema. Bibs passas no cinema. Cinema. Pizza e filmes em casa. Salada de frutas na Banca 40. Chopp Brahma. Cheetos requeijão em viagens. Biscoito de polvilho em viagens. Viagens! Um farroupilha e um café com leite quando falta café da manhã em casa. Batida de banana após corrida. Arroz e feijão no almoço da vó. Papaterra frita em São Simão. Massa a carbonara do meu pai. Omelete da minha mãe. Bolinho de arroz do Dedé. Qualquer invenção da Mari. Água com gás para matar a sede. Champagne para comemorar. Cachorro da república no fim da noite. Nella Pietra com a família. Quentão e pinhão em junho. Lentilha em dezembro. Crepe na praia. Queijo coalho na praia. Caipirinha na praia. Casquinha de siri após praia. Praia. Praia. Praia. Água de coco e Biscoito Globo no Rio. Koni no Rio. Rio. Rio. Rio. Pimenta. Picanha. Camarão. Twix. Pães. Uvas.
Pois é, se o hedonismo e a gula me impedirem de ir para o céu, nem quero ir mesmo: deve ser bem chato por lá.

domingo, 29 de maio de 2011

Esses quereres...


Nada como Caetanear num domingo cheio de pensamentos...

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim



...pensamentos, teorias e devaneios...