Quando se espera muita coisa, quando há possibilidades demais em um horizonte não muito distante, é obviamente gostoso, mas ao mesmo tempo se carrega uma ansiedade e agitação constantes, super difíceis de dominar, que até incomodam. Por outro lado, quando a vida está estabilizada, a rotina está seguindo seu curso normal e tudo está acontecendo dentro do planejado, a tranqüilidade impera, mas há uma monotonia chata lá no fundo que atucana, como um micro-pedregulho no sapato. Qual dos dois estados de espírito eu prefiro? Difícil, hein?
A minha ansiedade é algo normalmente discreto e controlado, pelo menos para quem vê de fora. Porém, quando em contato com doses cavalares de expectativas, não há mais qualquer controle ou racionalidade que a segure, eu sinto fisicamente: coração acelerado, adrenalina liberada gradualmente, agitação constante. Até um certo ponto é bom, riso fácil, animação geral, mas ela sempre passa desse limite e chega naquele em que não se sabe mais o que fazer, sendo que uma pessoa ansiosa SEMPRE tem que ter o que fazer.
Já a rotina bem vivida de uma vida estabilizada é uma maravilha para o corpo e para a mente. Entretanto, nada pior do que a total ausência de expectativas – pelo menos pra mim.
Dá até para fazer um paralelo com a paixão. Que maravilha é estar apaixonada, aquele início, a paixão avassaladora, o pensamento parando na pessoa o dia inteiro, de cinco em cinco minutos. Todo mundo busca isso, inevitável. Mas se pensarmos racionalmente – expressão obviamente ausente do dicionário de alguém apaixonadaço - não tem fase com mais alterações de humor do que esta. Vai-se do riso bobo ao ciúme infantil em um estralar de dedos, da felicidade plena à tristeza profunda em uma tarde sem o telefone tocar. Ao contrário, quando já se está naquela fase do namoro/casamento que a paixão enlouquecedora passou, o humor já não muda mais tão fácil, é muito mais difícil chegar na tristeza profunda... mas aquela felicidade plena, aquela alegria infantil, as inconfundíveis borboletas na barriga, também não dão muito sinal de vida não. E aí, o que é melhor?
“Cada escolha, uma renúncia”. Frase manjadíssima, e não à toa. Qualquer escolha traz inevitavelmente uma renúncia e talvez o grande desafio seja descobrir o melhor caminho a pegar. Eu acho que sempre tenderei ao caminho dos excessos, com ansiedade e paixão, foda-se. Quedas bem maiores, sem dúvida, mas provavelmente alegrias inigualáveis. Assim espero.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Já dizia Tim Maia: é primavera!

Chegou a primavera. O ano passou voando. Aliás, alguém me comentou certa vez que tem uma explicação física para o tempo passar cada vez mais depressa, dizendo que não é só impressão, que isso é realmente um fenômeno explicado matematicamente. Não duvido, eu prefiro acatar logo o que me diz alguém que estuda física quântica do que tentar inutilmente entender toda a explicação. O que eu sei é o que eu sinto: cada novo ano que chega passa mais rápido, o tempo está avançando em progressão geométrica.
Essa rapidez da passagem do tempo pode até incomodar para várias coisas, mas só por já estarmos na primavera de novo, eu sou imensamente grata a ela. Que delícia de estação! Pouca coisa melhor do que um dia lindo de sol sem estar um calor infernal, começar a usar roupas leves, os dias irem ficando mais longos, a cidade florida. Não só florida no sentido literal da coisa, mas colorida de pessoas, todo mundo saindo do casulo, começando a fazer exercícios na rua, desfrutando da cidade que no inverno não é lá tão acolhedora. E além de tudo isso, já ir sentindo o cheirinho e a expectativa do verão.
Não sei se é a estação ou a própria vida que me deixou sentindo leve assim, mas que essa sensação não passe tão rápido quanto o tempo, segundo estudantes de física quântica.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
10 coisas que não saem da minha cabeça:
1.
How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
2.
Como um país como os EUA, conhecido pelo ensino público de qualidade, seguro desemprego, dentre outras tantas assistências eficientemente prestadas pelo governo, não possui um sistema público de saúde? E mais: o quão forte é o lobby das seguradoras a ponto de deixar o Obama mal visto por querer implementar um?
3.
Porque raios a Maya mudou de roupa de repente e ninguém explicou nada hein?
4.
Desse ano não passa. Inter campeão brasileiro.
5.
Que a boa fase aquela não tenha passado, que esteja só suspensa.
6.
Preciso estudar. Preciso correr.
7.
Quem será o oitavo integrante do CQC?
8.
Será que vai dar certo? Tudo isso?
9.
Os fins não justificam os meios, principalmente na política.
10.
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.
1.
How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
2.
Como um país como os EUA, conhecido pelo ensino público de qualidade, seguro desemprego, dentre outras tantas assistências eficientemente prestadas pelo governo, não possui um sistema público de saúde? E mais: o quão forte é o lobby das seguradoras a ponto de deixar o Obama mal visto por querer implementar um?
3.
Porque raios a Maya mudou de roupa de repente e ninguém explicou nada hein?
4.
Desse ano não passa. Inter campeão brasileiro.
5.
Que a boa fase aquela não tenha passado, que esteja só suspensa.
6.
Preciso estudar. Preciso correr.
7.
Quem será o oitavo integrante do CQC?
8.
Será que vai dar certo? Tudo isso?
9.
Os fins não justificam os meios, principalmente na política.
10.
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
speakeasy
Hoje de manhã, enquanto tomava um café na faculdade, folheei uma revista velha (em se tratando de revistas semanais) e encontrei uma matéria que por pouco não me fez mandar a aula às favas. Falava sobre o movimento speakeasy, onda gastronômica que começou nos EUA e começa a dar pinta por terras tupiniquins. É uma bossa de "restaurantes underground", clandestinos, restritos e intimistas, sem alvará e com muito charme. O nome do movimento, by the way, se deve às casas que vendiam álcool na terra do Tio Sam na época da lei seca: se quisesse descolar um goró, o negócio era speak easy, falar baixinho, na manha, pra não dar bandeira...
Mas não se engane com os estabelecimentos fora-da-lei: não falo de lugares sujos, tampouco de chefs sonegadores, e menos ainda de cenários para reunião de quadrilhas ou rendez-vous. A idéia, na verdade, é bem simples: uma pessoa comum, dada a receber - bem - outras pessoas, e preferencialmente com mão boa pra cozinha, abre sua casa e ali oferece jantares a grupos pequenos. Grupos estes formados por gente que anda meio sem paciência pra reservar mesas nos ambientes sofisticados dos restaurantes, onde serão atendidos por garçons polidos que não vêem a hora de o último cliente pedir a conta (astronômica, via de regra). Pessoas interessadas em comer bem em uma atmosfera mais relaxada, menos impessoal, com cara de casa mesmo, sabe?
Então, o anfitrião cuida da ambiance, bola o menu, e define como seus convidados serão avisados (twitter, blog, e-mail, telefone). Esgotada a lotação da mesa de jantar e do sofá da sala, o povo vai chegando e fica por ali, à vontade, interagindo, bebendo vinho... A música segue o ritmo (agorinha a Billie Holiday tá me inspirando de uma maneira... e isso que eu acabo de sair da cozinha depois de 7 horas de trabalho intenso), e logo todos degustam o jantar (que pode ser almoço, brunch, drunch, café-da-manhã, qualquer hora é hora). A essas alturas o povo já se conheceu: trocam impressões sobre a comida, sugerem uma trilha sonora, começam a perguntar quando será a próxima...
Li a matéria e já comecei a bolar noites de speakeasy aqui em casa, misturando gente, testando receitas e me divertindo ainda mais do que de hábito atrás do fogão! Passei toda a aula de Consumidor pensando em como atrair glutões transgressores e fiquei até agora com isso na cabeça... quem sabe?
Mas não se engane com os estabelecimentos fora-da-lei: não falo de lugares sujos, tampouco de chefs sonegadores, e menos ainda de cenários para reunião de quadrilhas ou rendez-vous. A idéia, na verdade, é bem simples: uma pessoa comum, dada a receber - bem - outras pessoas, e preferencialmente com mão boa pra cozinha, abre sua casa e ali oferece jantares a grupos pequenos. Grupos estes formados por gente que anda meio sem paciência pra reservar mesas nos ambientes sofisticados dos restaurantes, onde serão atendidos por garçons polidos que não vêem a hora de o último cliente pedir a conta (astronômica, via de regra). Pessoas interessadas em comer bem em uma atmosfera mais relaxada, menos impessoal, com cara de casa mesmo, sabe?
Então, o anfitrião cuida da ambiance, bola o menu, e define como seus convidados serão avisados (twitter, blog, e-mail, telefone). Esgotada a lotação da mesa de jantar e do sofá da sala, o povo vai chegando e fica por ali, à vontade, interagindo, bebendo vinho... A música segue o ritmo (agorinha a Billie Holiday tá me inspirando de uma maneira... e isso que eu acabo de sair da cozinha depois de 7 horas de trabalho intenso), e logo todos degustam o jantar (que pode ser almoço, brunch, drunch, café-da-manhã, qualquer hora é hora). A essas alturas o povo já se conheceu: trocam impressões sobre a comida, sugerem uma trilha sonora, começam a perguntar quando será a próxima...
Li a matéria e já comecei a bolar noites de speakeasy aqui em casa, misturando gente, testando receitas e me divertindo ainda mais do que de hábito atrás do fogão! Passei toda a aula de Consumidor pensando em como atrair glutões transgressores e fiquei até agora com isso na cabeça... quem sabe?
sábado, 29 de agosto de 2009
“Tudo me move.”
Patrice Chéreau, um dos maiores diretores contemporâneos de teatro, ópera e cinema fala sobre sua vida, criações, inquietudes e o Brasil.
De Nova York por telefone, nossa conversa começou com Chéreau ligando para a sede do Porto Alegre em Cena por causa de uma chamada não atendida no seu aparelho celular. “Estou com esse número no meu celular. Estou dando o retorno”, ele justifica. Falamos um pouco quando me pediu para ligar em meia-hora. Após 30 minutos exatos, retornei. Chamou e ninguém atendeu. Segundos depois o telefone do Em Cena toca. É ele se desculpando. Desligamos e em seguida liguei para ele. No que finalmente conseguimos tabular uma conversação, Chéreau riu dos textos que montou quando era jovem e da visão de grande diretor que só ele desconhece.
Ao longo da conversa, que durou mais de uma hora, passamos do tema profissional da sua carreira artística e espetáculos para falar de inquietudes, política e humanidade. Terminamos com autores, projetos, textos e o futuro. Antes de desligar eu o disse que em breve nos encontraremos em Porto Alegre quando ele estiver na cidade para as apresentações de O Grande Inquisidor nos dias 12 e 13 de setembro de 2009 às 21 horas no Theatro São Pedro. Antes disso, sua atriz Dominique Blanc estará em cartaz com La Douleur, direção dele, no mesmo teatro nos dias 9, 10 e 11 de setembro também às 21 horas.
Porto Alegre em Cena: O seu trabalho é reconhecido no Brasil pela excelência artística. Você é considerado um dos maiores encenadores contemporâneos do mundo.
Patrice Chéreau: Ah! Muito obrigado.
É verdade. Como o teatro, o cinema a e ópera entraram na sua vida?
(Risos) Oh! Quando eu era muito pequeno, uma criança. Lembro de montar uma peça com uns amigos e me apresentar no colégio onde eu estudava, na cidade de Lézigné, onde nasci. Fui muito novo para Paris, com doze anos de idade. Não sei por quê. Eu venho de uma família de artistas. Meu pai era pintor e minha mãe designer, mas ela também pintava. Então quando criança eu costumava pintar, desenhar. Um dia, comecei a fazer teatro. Eu ia muito a teatro. Quase todo o final de semana. E gostei muito daquilo.
Então você começou a sua vida artística no teatro?
Sim. Mas depois fui estudar em Paris, em outro colégio. Lá havia um grupo de teatro e me juntei a eles. Lembro que ganhei um papel bem pequeno, mas eu era muito ruim, tinha apenas dezesseis anos nessa época. O meu trabalho no grupo era pensar o cenário, pintar o cenário, pensar as luzes, pendurar as lâmpadas e ensaiar. Eu não dirigia e nem atuava ainda. Esta escola era muito próxima à uma coisa muito importante para nós, a Cinemateca de Paris. Eu ia a Cinemateca dia sim,dia não, e durante todos os finais de semana. Por causa disso, entrei nesse grupo e gostava muito de estar ali, de ajudar. Via as pessoas trabalhando e ia ao cinema para ver todos os filmes apresentados, o expressionismo alemão, muito outros. Nesse grupo, eu era o mais velho, e então, naturalmente, comecei a dirigir. Isso aconteceu em 64 e, desde então, nunca mais parei. Foi a minha primeira produção teatral.
Qual o nome do espetáculo?
Era uma peça de Victor Hugo. Na verdade, sete peças. Os atores tinham medo dela. (Risos) “A Intervenção”, L'Intervention, de Victor Hugo. Uma peça muito estranha. Não era boa. Mas, sabe, quando você é jovem tem a idéia, quer montar e fazer peças de autores desconhecidos, textos desconhecidos. Tinha 19 anos nessa época. As montagens já eram consideradas profissionais. Depois, montei espetáculos com textos de Molière. Algumas pessoas foram assistir à uma dessas peças e fui convidado para dirigir minha primeira ópera, “A Italiana em Argel”, de Rossini, com doze pessoas. Isso foi feito em Spoleto, uma pequena cidade da Úmbria, na Itália. A ópera tinha sido dirigida por um famoso escritor ítalo-americano, Giancarlo Binote, e foi ele quem me convidou para fazer a produção do espetáculo. Depois, fui chamado para trabalhar no Piccolo-Teatro, em Milão. Tive muita sorte. Sempre tive muita sorte. Foi muita sorte ter trabalhado em Milão, nesse belo teatro, com excelentes atores. Depois disso, voltei à França.
Quanto tempo você ficou na Itália?
Três anos, de 1970 a 1973. Em 73, voltei para a França. Voltei para ser co-diretor do Teatro Nacional Popular de Paris, com Roger Planchon, justamente quando o Ministro da Cultura da França, Sr. Jacques Duhamel, transferiu o Théâtre National Populaire para Villeurbanne, perto de Lyon, fundado pelo próprio Planchon, em 1957.
Quando e como começou a sua trajetória com o cinema?
Em 1974, com “La Chair de l'Orchidée”, A Carne da Orquídea, meu primeiro filme, com Charlotte Rampling no elenco. Já tinha feito alguns filmes curtos para a televisão. Eu já era famoso no teatro, e resolvi escrever e dirigir um roteiro para outro veículo. Depois, comecei a fazer meus próprios projetos de cinema.
Todos esses anos dirigindo teatro, ópera e cinema. Qual a diferença entre eles? O método de direção muda de um para o outro?
Não. É o mesmo trabalho. É exatamente o mesmo trabalho. Com textos diferentes, com ferramentas diferentes. São mídias diferentes, mas o meu trabalho é exatamente o mesmo. Você está contando uma história para a platéia em qualquer um deles. Fazendo com que o espetáculo torne essa história clara. Só posso continuar trabalhando nessas três formas de arte porque acredito que seja o mesmo trabalho para todas. Não vejo diferença entre elas.
Você costumava ver diferença entre elas quando era mais jovem?
Ah sim! Porque as pessoas me forçavam a ver que elas eram diferentes. Queriam me convencer de que teatro e cinema são diferentes. Eu sei disso. Não sou estúpido. Mas, de alguma maneira, para mim é igual. Há coisas que você pode ter na tela que você não pode conseguir fora dela. Você pode ter o close up e você pode ter o corte no cinema, é claro.
E o seu compromisso com as três artes é o mesmo?
Depende. Depende do momento. Fiz muito teatro, muito cinema, mas nesses últimos quatro anos me dediquei mais à ópera. Fiz três produções e agora estou fazendo uma remontagem em Nova York. O problema é tempo, cronograma de trabalho. Meu último filme fiz para o festival de Veneza. Nos últimos anos, não fiz mais cinema porque estava envolvido com óperas. Depois quero voltar a fazer teatro. É tudo uma questão de agenda. Até porque uma ópera deve ser preparada três anos antes de estrear e um filme em três meses vocês termina as gravações. Em quatro anos, sem dúvida eu poderia ter feito vários filmes.
A Rainha Margot é um dos seus filmes mais conhecidos no Brasil.
É o meu filme mais conhecido em todos os países.
É um filme maravilhoso. E você conhece algo do cinema brasileiro?
Não muito. Eu conheço muito bem o Walter Salles. Eu o conheci pessoalmente, vi seus filmes e gostei muito. Mas é o único nome que me vem à cabeça.
O que o senhor espera das apresentações de La Douleur e de Le Grand Inquisiteur no Brasil, nas cidades de São Paulo e Porto Alegre?
Não sei. Teremos de esperar. Estou muito curioso e feliz de levar esses espetáculos ao Brasil, porque só estive uma vez no Brasil, isso em 1980. Estive no Rio de Janeiro e em São Paulo para algumas conferências. Será a primeira vez que estarei apresentando no Brasil meu trabalho como diretor e ator.
Nos trabalhos de ator, você tem algum processo definido para a construção de seus personagens?
Atuo muito poucas vezes. Não é meu trabalho principal. Meu trabalho é o de direção e, às vezes, eu próprio me dirijo. “O Grande Inquisidor” é uma leitura. Estarei sentado no palco com o texto na mão, lendo. Claro que não é simplesmente uma leitura. Mostro ao público como penso que esse texto deve ser dito, como eu o vejo. Meu trabalho de ator está sempre ligado ao meu trabalho de diretor.
E dirigir Dominique Blanc? Como foi sua relação com ela ao dirigir “La Douleur”?
Já tinha trabalhado com ela antes, interpretou a mãe na Rainha Margot. É uma excelente atriz com quem gosto muito de trabalhar. “La Douleur” não é um texto feito para o teatro. Apresentei esse texto da escritora Marguerite Duras para Dominique porque o achei muito bom. Trata das dores de uma mulher que espera seu marido voltar de um campo de concentração nazista. É muito diferente de uma peça cujo texto é feito para teatro; é um texto extremamente literário, uma opção de trabalho mais difícil, mas instigante. É importante escolher textos assim para serem trabalhados no palco e contar também no palco histórias que não foram escritas para o teatro.
E as suas expectativas com relação à interpretação de Dominique Blanc foram atingidas?
Não crio expectativas em relação às minhas peças. Diretores não têm expectativas. Claro que quando dirijo, espero o melhor, mas as expectativas são com relação ao texto. Os caminhos do processo de direção de uma peça mudam durante os ensaios. Espero encontrar sempre uma situação nova e inesperada.
Nos espetáculos La Douleur e Le Grand Inquisiteur vocês usa muitos efeitos de som e de luz. Isso é uma coincidência ou uma opção estática?
Não. Não uso efeitos de som no “Le Grand Inquisiteur” e a luz do espetáculo é muito simples. Há apenas uma iluminação básica para que as pessoas possam me ver lendo o texto. Em “La Douleur” há efeitos de som, mas são muito discretos e a iluminação também é simples. No teatro, o que gosto de trabalhar é a relação entre o ator e o texto. Minha direção é voltada para que o público veja a força de um texto na interpretação de um ator. Os efeitos técnicos vêm de fora para complementar, mas não fazem parte essencial da encenação.
No início da nossa conversa você disse que, quando começou sua carreira artística, trabalhava na parte técnica dos espetáculos produzidos no colégio onde estudava. Isso não dá vontade de usar mais os efeitos de luz, som e cenário?
Pelo contrario. Naquela época, justamente, aprendi que o meu trabalho era para servir de pano de fundo ao trabalho dos atores. Gosto disso no teatro, prioritariamente. Na ópera e no cinema, posso utilizar mais esses efeitos todos, mas no teatro minha opção de direção está definida.
Há algum autor de que você tem vontade de montar para o teatro ou cinema que nunca tenha montado antes?
Tenho um projeto para o próximo ano, 2010, de montar uma peça, na verdade duas peças, de um autor francês ainda não muito conhecido, Jon Fosse. É um belo escritor e um belo texto.
Nesse momento você está dirigindo uma ópera em Nova York. Pode falar um pouco sobre esse trabalho?
Sim. Fui convidado para fazer a remontagem de uma ópera adaptada do escritor russo Fiódor Dostoievski, que se chama “Recordações da Casa dos Mortos”, inspirado em sua vivência,em 1849, quando foi preso e acusado de participar em reuniões na casa de um revolucionário que conspirava contra o regim. Aí, Dostoievski foi condenado à morte. Passou nove anos na Sibéria, quatro no presídio de Omsk, e mais cinco como soldado raso.
Você gosta de Dostoievski ainda hoje?
Dostoievski foi um grande escritor, mas para esse trabalho só fui convidado para a remontagem da ópera. Estou trabalhando nele agora, interrompo para ir ao Brasil e depois à Argentina. Volto para o trabalho final e a tempo de assistir a estréia, em novembro.
Você tem alguma inquietude? Algo que o mova e que você usa no seu trabalho?
Tudo me move. As pessoas que vejo nas ruas todos os dias quando vou pegar o metrô. As relações das pessoas, a individualidade das pessoas. Tudo faz parte do meu trabalho. Penso no que vai acontecer com o mundo: guerras, política, economia. Tudo isso me move, tudo mexe comigo.
E essas coisas, como você as utiliza no seu trabalho?
Procuro traduzir esses sentimentos para o palco, me perguntando sobre essas questões enquanto trabalho. Nem sempre encontro as respostas. Não tenho respostas para todas as minhas perguntas. Por que as coisas são como são? Por que alguém não tem o que comer se trabalha tanto? Por que alguém com poder pratica o mal e não tem paz?
Você sabe que Peter Brook também montou o texto “O Grande Inquisidor”?
Sei, sim. Mas não assisti ainda.
Você saberia me dizer por que dois grandes diretores de teatro no mundo escolheram o mesmo texto para dirigir?
Porque é um texto maravilhoso. O texto é fantástico. Ele tem tanto para falar sobre os seres humanos. Das pessoas, da essência humana. Fala muito sobre a liberdade.
Você tem a consciência de ser um grande diretor? Você sabe que as pessoas admiram o seu trabalho?
Sei que isso é um fato. Mas não sei porquê e nem o que isso significa. Hoje mesmo, de manhã, estava indo para o ensaio e uma moça me chamou pelo nome. Eu me virei para ver o que era e, então, ela me falou o quanto admirava meu trabalho. Ora, estou em Nova York, cidade com oito milhões de pessoas transitando pelas ruas. Aparentemente todos sabem que sou um bom diretor, menos eu.
Você pensa no futuro?
Não penso muito no meu futuro, mas penso muito no futuro do mundo, no futuro da humanidade.
De Nova York por telefone, nossa conversa começou com Chéreau ligando para a sede do Porto Alegre em Cena por causa de uma chamada não atendida no seu aparelho celular. “Estou com esse número no meu celular. Estou dando o retorno”, ele justifica. Falamos um pouco quando me pediu para ligar em meia-hora. Após 30 minutos exatos, retornei. Chamou e ninguém atendeu. Segundos depois o telefone do Em Cena toca. É ele se desculpando. Desligamos e em seguida liguei para ele. No que finalmente conseguimos tabular uma conversação, Chéreau riu dos textos que montou quando era jovem e da visão de grande diretor que só ele desconhece.
Ao longo da conversa, que durou mais de uma hora, passamos do tema profissional da sua carreira artística e espetáculos para falar de inquietudes, política e humanidade. Terminamos com autores, projetos, textos e o futuro. Antes de desligar eu o disse que em breve nos encontraremos em Porto Alegre quando ele estiver na cidade para as apresentações de O Grande Inquisidor nos dias 12 e 13 de setembro de 2009 às 21 horas no Theatro São Pedro. Antes disso, sua atriz Dominique Blanc estará em cartaz com La Douleur, direção dele, no mesmo teatro nos dias 9, 10 e 11 de setembro também às 21 horas.
Porto Alegre em Cena: O seu trabalho é reconhecido no Brasil pela excelência artística. Você é considerado um dos maiores encenadores contemporâneos do mundo.
Patrice Chéreau: Ah! Muito obrigado.
É verdade. Como o teatro, o cinema a e ópera entraram na sua vida?
(Risos) Oh! Quando eu era muito pequeno, uma criança. Lembro de montar uma peça com uns amigos e me apresentar no colégio onde eu estudava, na cidade de Lézigné, onde nasci. Fui muito novo para Paris, com doze anos de idade. Não sei por quê. Eu venho de uma família de artistas. Meu pai era pintor e minha mãe designer, mas ela também pintava. Então quando criança eu costumava pintar, desenhar. Um dia, comecei a fazer teatro. Eu ia muito a teatro. Quase todo o final de semana. E gostei muito daquilo.
Então você começou a sua vida artística no teatro?
Sim. Mas depois fui estudar em Paris, em outro colégio. Lá havia um grupo de teatro e me juntei a eles. Lembro que ganhei um papel bem pequeno, mas eu era muito ruim, tinha apenas dezesseis anos nessa época. O meu trabalho no grupo era pensar o cenário, pintar o cenário, pensar as luzes, pendurar as lâmpadas e ensaiar. Eu não dirigia e nem atuava ainda. Esta escola era muito próxima à uma coisa muito importante para nós, a Cinemateca de Paris. Eu ia a Cinemateca dia sim,dia não, e durante todos os finais de semana. Por causa disso, entrei nesse grupo e gostava muito de estar ali, de ajudar. Via as pessoas trabalhando e ia ao cinema para ver todos os filmes apresentados, o expressionismo alemão, muito outros. Nesse grupo, eu era o mais velho, e então, naturalmente, comecei a dirigir. Isso aconteceu em 64 e, desde então, nunca mais parei. Foi a minha primeira produção teatral.
Qual o nome do espetáculo?
Era uma peça de Victor Hugo. Na verdade, sete peças. Os atores tinham medo dela. (Risos) “A Intervenção”, L'Intervention, de Victor Hugo. Uma peça muito estranha. Não era boa. Mas, sabe, quando você é jovem tem a idéia, quer montar e fazer peças de autores desconhecidos, textos desconhecidos. Tinha 19 anos nessa época. As montagens já eram consideradas profissionais. Depois, montei espetáculos com textos de Molière. Algumas pessoas foram assistir à uma dessas peças e fui convidado para dirigir minha primeira ópera, “A Italiana em Argel”, de Rossini, com doze pessoas. Isso foi feito em Spoleto, uma pequena cidade da Úmbria, na Itália. A ópera tinha sido dirigida por um famoso escritor ítalo-americano, Giancarlo Binote, e foi ele quem me convidou para fazer a produção do espetáculo. Depois, fui chamado para trabalhar no Piccolo-Teatro, em Milão. Tive muita sorte. Sempre tive muita sorte. Foi muita sorte ter trabalhado em Milão, nesse belo teatro, com excelentes atores. Depois disso, voltei à França.
Quanto tempo você ficou na Itália?
Três anos, de 1970 a 1973. Em 73, voltei para a França. Voltei para ser co-diretor do Teatro Nacional Popular de Paris, com Roger Planchon, justamente quando o Ministro da Cultura da França, Sr. Jacques Duhamel, transferiu o Théâtre National Populaire para Villeurbanne, perto de Lyon, fundado pelo próprio Planchon, em 1957.
Quando e como começou a sua trajetória com o cinema?
Em 1974, com “La Chair de l'Orchidée”, A Carne da Orquídea, meu primeiro filme, com Charlotte Rampling no elenco. Já tinha feito alguns filmes curtos para a televisão. Eu já era famoso no teatro, e resolvi escrever e dirigir um roteiro para outro veículo. Depois, comecei a fazer meus próprios projetos de cinema.
Todos esses anos dirigindo teatro, ópera e cinema. Qual a diferença entre eles? O método de direção muda de um para o outro?
Não. É o mesmo trabalho. É exatamente o mesmo trabalho. Com textos diferentes, com ferramentas diferentes. São mídias diferentes, mas o meu trabalho é exatamente o mesmo. Você está contando uma história para a platéia em qualquer um deles. Fazendo com que o espetáculo torne essa história clara. Só posso continuar trabalhando nessas três formas de arte porque acredito que seja o mesmo trabalho para todas. Não vejo diferença entre elas.
Você costumava ver diferença entre elas quando era mais jovem?
Ah sim! Porque as pessoas me forçavam a ver que elas eram diferentes. Queriam me convencer de que teatro e cinema são diferentes. Eu sei disso. Não sou estúpido. Mas, de alguma maneira, para mim é igual. Há coisas que você pode ter na tela que você não pode conseguir fora dela. Você pode ter o close up e você pode ter o corte no cinema, é claro.
E o seu compromisso com as três artes é o mesmo?
Depende. Depende do momento. Fiz muito teatro, muito cinema, mas nesses últimos quatro anos me dediquei mais à ópera. Fiz três produções e agora estou fazendo uma remontagem em Nova York. O problema é tempo, cronograma de trabalho. Meu último filme fiz para o festival de Veneza. Nos últimos anos, não fiz mais cinema porque estava envolvido com óperas. Depois quero voltar a fazer teatro. É tudo uma questão de agenda. Até porque uma ópera deve ser preparada três anos antes de estrear e um filme em três meses vocês termina as gravações. Em quatro anos, sem dúvida eu poderia ter feito vários filmes.
A Rainha Margot é um dos seus filmes mais conhecidos no Brasil.
É o meu filme mais conhecido em todos os países.
É um filme maravilhoso. E você conhece algo do cinema brasileiro?
Não muito. Eu conheço muito bem o Walter Salles. Eu o conheci pessoalmente, vi seus filmes e gostei muito. Mas é o único nome que me vem à cabeça.
O que o senhor espera das apresentações de La Douleur e de Le Grand Inquisiteur no Brasil, nas cidades de São Paulo e Porto Alegre?
Não sei. Teremos de esperar. Estou muito curioso e feliz de levar esses espetáculos ao Brasil, porque só estive uma vez no Brasil, isso em 1980. Estive no Rio de Janeiro e em São Paulo para algumas conferências. Será a primeira vez que estarei apresentando no Brasil meu trabalho como diretor e ator.
Nos trabalhos de ator, você tem algum processo definido para a construção de seus personagens?
Atuo muito poucas vezes. Não é meu trabalho principal. Meu trabalho é o de direção e, às vezes, eu próprio me dirijo. “O Grande Inquisidor” é uma leitura. Estarei sentado no palco com o texto na mão, lendo. Claro que não é simplesmente uma leitura. Mostro ao público como penso que esse texto deve ser dito, como eu o vejo. Meu trabalho de ator está sempre ligado ao meu trabalho de diretor.
E dirigir Dominique Blanc? Como foi sua relação com ela ao dirigir “La Douleur”?
Já tinha trabalhado com ela antes, interpretou a mãe na Rainha Margot. É uma excelente atriz com quem gosto muito de trabalhar. “La Douleur” não é um texto feito para o teatro. Apresentei esse texto da escritora Marguerite Duras para Dominique porque o achei muito bom. Trata das dores de uma mulher que espera seu marido voltar de um campo de concentração nazista. É muito diferente de uma peça cujo texto é feito para teatro; é um texto extremamente literário, uma opção de trabalho mais difícil, mas instigante. É importante escolher textos assim para serem trabalhados no palco e contar também no palco histórias que não foram escritas para o teatro.
E as suas expectativas com relação à interpretação de Dominique Blanc foram atingidas?
Não crio expectativas em relação às minhas peças. Diretores não têm expectativas. Claro que quando dirijo, espero o melhor, mas as expectativas são com relação ao texto. Os caminhos do processo de direção de uma peça mudam durante os ensaios. Espero encontrar sempre uma situação nova e inesperada.
Nos espetáculos La Douleur e Le Grand Inquisiteur vocês usa muitos efeitos de som e de luz. Isso é uma coincidência ou uma opção estática?
Não. Não uso efeitos de som no “Le Grand Inquisiteur” e a luz do espetáculo é muito simples. Há apenas uma iluminação básica para que as pessoas possam me ver lendo o texto. Em “La Douleur” há efeitos de som, mas são muito discretos e a iluminação também é simples. No teatro, o que gosto de trabalhar é a relação entre o ator e o texto. Minha direção é voltada para que o público veja a força de um texto na interpretação de um ator. Os efeitos técnicos vêm de fora para complementar, mas não fazem parte essencial da encenação.
No início da nossa conversa você disse que, quando começou sua carreira artística, trabalhava na parte técnica dos espetáculos produzidos no colégio onde estudava. Isso não dá vontade de usar mais os efeitos de luz, som e cenário?
Pelo contrario. Naquela época, justamente, aprendi que o meu trabalho era para servir de pano de fundo ao trabalho dos atores. Gosto disso no teatro, prioritariamente. Na ópera e no cinema, posso utilizar mais esses efeitos todos, mas no teatro minha opção de direção está definida.
Há algum autor de que você tem vontade de montar para o teatro ou cinema que nunca tenha montado antes?
Tenho um projeto para o próximo ano, 2010, de montar uma peça, na verdade duas peças, de um autor francês ainda não muito conhecido, Jon Fosse. É um belo escritor e um belo texto.
Nesse momento você está dirigindo uma ópera em Nova York. Pode falar um pouco sobre esse trabalho?
Sim. Fui convidado para fazer a remontagem de uma ópera adaptada do escritor russo Fiódor Dostoievski, que se chama “Recordações da Casa dos Mortos”, inspirado em sua vivência,em 1849, quando foi preso e acusado de participar em reuniões na casa de um revolucionário que conspirava contra o regim. Aí, Dostoievski foi condenado à morte. Passou nove anos na Sibéria, quatro no presídio de Omsk, e mais cinco como soldado raso.
Você gosta de Dostoievski ainda hoje?
Dostoievski foi um grande escritor, mas para esse trabalho só fui convidado para a remontagem da ópera. Estou trabalhando nele agora, interrompo para ir ao Brasil e depois à Argentina. Volto para o trabalho final e a tempo de assistir a estréia, em novembro.
Você tem alguma inquietude? Algo que o mova e que você usa no seu trabalho?
Tudo me move. As pessoas que vejo nas ruas todos os dias quando vou pegar o metrô. As relações das pessoas, a individualidade das pessoas. Tudo faz parte do meu trabalho. Penso no que vai acontecer com o mundo: guerras, política, economia. Tudo isso me move, tudo mexe comigo.
E essas coisas, como você as utiliza no seu trabalho?
Procuro traduzir esses sentimentos para o palco, me perguntando sobre essas questões enquanto trabalho. Nem sempre encontro as respostas. Não tenho respostas para todas as minhas perguntas. Por que as coisas são como são? Por que alguém não tem o que comer se trabalha tanto? Por que alguém com poder pratica o mal e não tem paz?
Você sabe que Peter Brook também montou o texto “O Grande Inquisidor”?
Sei, sim. Mas não assisti ainda.
Você saberia me dizer por que dois grandes diretores de teatro no mundo escolheram o mesmo texto para dirigir?
Porque é um texto maravilhoso. O texto é fantástico. Ele tem tanto para falar sobre os seres humanos. Das pessoas, da essência humana. Fala muito sobre a liberdade.
Você tem a consciência de ser um grande diretor? Você sabe que as pessoas admiram o seu trabalho?
Sei que isso é um fato. Mas não sei porquê e nem o que isso significa. Hoje mesmo, de manhã, estava indo para o ensaio e uma moça me chamou pelo nome. Eu me virei para ver o que era e, então, ela me falou o quanto admirava meu trabalho. Ora, estou em Nova York, cidade com oito milhões de pessoas transitando pelas ruas. Aparentemente todos sabem que sou um bom diretor, menos eu.
Você pensa no futuro?
Não penso muito no meu futuro, mas penso muito no futuro do mundo, no futuro da humanidade.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Da lua

Pois é. Então. Fases.
Que coisa engraçada que é a vida. Mais de uma vez eu já escrevi por aqui sobre isso, sobre como a vida é cíclica, como determinadas situações se repetem e por aí vai. O interessante é que, mesmo isso acontecendo, a gente sempre nota e aprende alguma coisa nova, tudo é uma soma, experiências nunca são demais.
Eu tenho um pendor a acreditar em astrologia. Não no horóscopo diário, que sai no jornal e me recomenda “cautela com os doces” ou “chances de encontrar o amor da sua vida”, mas na influência dos astros na vida da gente. Tem vezes que me parece ser a única explicação.
Essa forma cíclica da vida, por exemplo. É engraçado como certas coisas tem uma freqüência, se não previsível, regular. Eu estava vendo a entrevista do Felipe Camargo, por exemplo, e a Marília Gabriela comentou que ele explodiu para o sucesso com 24 anos, na minissérie Anos Dourados. Passou um tempo sendo o 1º galã da Globo, depois vieram os escândalos, a escassez de trabalho e por fim o ostracismo. Ninguém mais ouvia falar em Felipe Camargo. Agora ele retomou a projeção nacional ao protagonizar a excelente minissérie Som e Fúria, aos 48 anos. Não é engraçado que ele tenha encontrado o sucesso a cada 24 anos da sua vida?
O “retorno de Saturno” é outro exemplo de crença astrológica que eu acredito porque observo na realidade. Explicando para quem não sabe (explicação baseada no conteúdo do site Terra): entre os 28 e 30 anos de idade, ocorre o primeiro retorno de Saturno, ou seja, o planeta em trânsito se posiciona no mesmo local em que estava no momento de nascimento da pessoa. Assim, dá início a uma nova volta em torno do zodíaco.
Desta maneira, é uma espécie de rito de passagem, a partir deste período muitas coisas que antes eram parte de uma gama de opções se tornam definitivas, surge a necessidade de determinar o que vai dar impulso aos próximos 28 anos e tudo o que é decidido tem sua repercussão e conseqüência. É quando se adquire definitivamente autonomia, quando se começa a se preparar para inverter os papéis (de filho para pais).
Nesta época, surge a necessidade crescente de se fundar um lar, ter filhos, educá-los e progredir profissionalmente. Se começa a pensar seriamente no futuro e é o primeiro contato com a sensação de que o tempo passa e que a velhice não tarda a chegar, daí vem a intensificação das cobranças internas. Nessa época, as pessoas que ainda não se definiram na vida passam a se sentir muito angustiadas, porque o fantasma do fracasso começa a ameaçar. Freqüentemente, nesta idade as pessoas retomam os estudos, procuram caminhos profissionais definitivos e não mais bicos e trabalhos esporádicos. A crise provocada por Saturno sempre é complicada, já que mexe com assuntos como o tempo e a idade, fracasso, frustração ou sucesso. Alguma dúvida de que todo mundo passe pelo Retorno de Saturno?
Na minha vida essa “ciclicidade” também é nítida, já cansei de falar sobre isso. Parece que ela vai dando guinadas de dois em dois anos. Geralmente os meus anos ímpares são os de virada e os pares são os de firmação, de calmaria e consolidação do que veio um ano antes. Olha só: 2003 entrei na faculdade. Tudo novo. 2004 segui lá. 2005 comecei a namorar, fui pra Austrália, larguei a faculdade. 2006 voltei, me acalmei, estudei. 2007 faculdade nova, fim de namoro, trabalho novo. 2008 mesmo estado civil, mesmo emprego. 2009 novo emprego. Não é engraçado? E isso se repete em diversas outras áreas da minha vida, no meu humor, nas pessoas á minha volta, em tudo.
Uma amiga minha que fez mapa astral me disse uma vez: “se a lua, como sabemos, influencia tão direta e visivelmente as marés, porque não influenciaria as pessoas, cujo corpo é composto por mais de 80% de água”? Não é de se pensar?
Não que eu me guie por isso, que eu fique esperando as mudanças astrológicas, mas eu vou notando elas de certa forma. E, só por via das dúvidas, aumentei a cautela com os doces.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Carta de ator anônimo
Não admito quem não gosta de Godard, Fellini ou Bergman. Só um ignorante não conhece um texto do Beckett, Tchékhov ou Ibsen. Leio muito esses autores porque isso é cultura. Eu tenho a cabeça muito aberta, afinal eu estudo teatro que é uma arte que abre muito a cabeça da gente, não é. Vejo o mundo de uma outra forma. Nada mais me choca.
Sofri muito nos últimos anos. Fiquei muito tempo parado, sem fazer teatro. Ficava triste e brabo ao mesmo tempo. Ninguém me chamava. Comecei a ficar desesperado. Sofri muito nesse período. Via outras pessoas com projetos e trabalhos legais e eu não fazendo nada. Achava que eu era um péssimo ator. Que as pessoas me acham um péssimo ator. Até que voltei a ativa.
Muito bom estar de volta no palco. Em contato com as pessoas. Só ensaiar todos os dias é que é sacrificante. E quando pra juntar o elenco todo pra passar um corridão temos que ensaiar final de semana? Um inferno. Um saco não poder almoçar com os amigos de teatro em locais de teatro, falar de teatro e de pessoas de teatro. Lembrar dos momentos do passado teatral e rir das mudanças que tiveram no teatro. O pior é ainda ter que ensaiar no frio. Deus me livre! Se bem que no calor também é sacrificante. Pode fazer mal pra voz.
Não. O pior é quando o diretor ainda pede pra passar e repassar a cena umas dez vezes. Não sei fazer. Não sei fazer assim como ele quer, porra. As vezes ele diz que ta bom e aí no ensaio seguinte já quer coisa diferente. Assim não dá. Fico triste e brabo ao mesmo tempo. Começo e ficar desesperado. Sofro muito nesse período. Acho que sou um péssimo ator. Que as pessoas me acham um péssimo ator.
Não, sou muito feliz. Acho maravilhosa a carreira de ator. Acharia lindo se eu morresse no palco. É o que eu quero.
Sofri muito nos últimos anos. Fiquei muito tempo parado, sem fazer teatro. Ficava triste e brabo ao mesmo tempo. Ninguém me chamava. Comecei a ficar desesperado. Sofri muito nesse período. Via outras pessoas com projetos e trabalhos legais e eu não fazendo nada. Achava que eu era um péssimo ator. Que as pessoas me acham um péssimo ator. Até que voltei a ativa.
Muito bom estar de volta no palco. Em contato com as pessoas. Só ensaiar todos os dias é que é sacrificante. E quando pra juntar o elenco todo pra passar um corridão temos que ensaiar final de semana? Um inferno. Um saco não poder almoçar com os amigos de teatro em locais de teatro, falar de teatro e de pessoas de teatro. Lembrar dos momentos do passado teatral e rir das mudanças que tiveram no teatro. O pior é ainda ter que ensaiar no frio. Deus me livre! Se bem que no calor também é sacrificante. Pode fazer mal pra voz.
Não. O pior é quando o diretor ainda pede pra passar e repassar a cena umas dez vezes. Não sei fazer. Não sei fazer assim como ele quer, porra. As vezes ele diz que ta bom e aí no ensaio seguinte já quer coisa diferente. Assim não dá. Fico triste e brabo ao mesmo tempo. Começo e ficar desesperado. Sofro muito nesse período. Acho que sou um péssimo ator. Que as pessoas me acham um péssimo ator.
Não, sou muito feliz. Acho maravilhosa a carreira de ator. Acharia lindo se eu morresse no palco. É o que eu quero.
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